segunda-feira, 14 de abril de 2008

Acesso

Lembro que já faz um tempo que não venho aqui, posso ver a velha caixa de sapatos com as nossas fotos sendo enterrada pela poeira e pelas teias de aranha. Talvez seja assim também com o nosso passado, guardado nos pensamentos recônditos, com apresentações-surpresa de teatro de sombras nos momentos de silêncio. Por vezes não consigo lembrar do seu rosto e me sinto tentado a abrir a caixa, porém, algo me impede, pode não fazer muito sentido, mas penso em como pode demorar para a camada de pó se assentar novamente, e em quão trabalhoso foi o processo de tecer as teias que a cercam, pode ser essa a minha segurança.
Não é a minha vontade, mas um dia este quarto pode ser esquecido, os intervalos entre as minhas visitas têm sido cada vez mais longos, como uma pedra arremessada na água, as ondas vão desaparecendo à medida que se afastam do ponto de colisão, talvez seja erguido um muro de tijolos sobre sua porta e, se assim for, só o descobriria novamente se meu mundo desabasse.
Entenda que eu não quis trancar a caixa de fotos aqui, não vou ser hipócrita e dizer que ela não cabia nos cômodos que eu sempre visito, pois sempre há espaço, mas precisava deixá-la em algum lugar, longe da minha visão. Acredito que sempre podemos nos desfazer das coisas que lembram, mas a lembrança em si sempre vai continuar escondida em algum canto.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Trecho sem importância de um livro que não vai existir

A osp o ucos asco isas vão se acertando. Acho que nada nasceu perfeito, não importa no que você acredite, sempre as etapas não se equiparam na real beleza do destino, rabisco, borrão, Monalisa, no processo as coisas parecem caóticas muito provavelmente por não conseguirmos visualizar o destino. Pode parecer otimismo, mas sempre acreditei que no final tudo dá certo, seja pelo caminho fácil ou difícil, com ou sem estresse no final tudo dá certo.
Lembro de uma vez, na época que eu ainda era apenas um garoto que mal havia retirado as rodinhas laterais da bicicleta, perdido em pensamentos sobre o que era a minha então concepção de mundo, nada muito errado, nada muito certo residindo na minha mente e ainda assim é hoje. Não posso afirmar nem mesmo as certezas, meu raciocínio se limita às minhas experiências e meus sentimentos vivem a me pregar peças.
Talvez vivamos sempre de fugas, sempre desejando estar em outro lugar, com outra pessoa, com outro salário, almoçando ou jantando outra coisa e quem consegue sossegar é em sua maioria quem não tem mais energia para mais uma braçada nadando rio acima, acho que estou sendo pessimista agora, não é mesmo? Engraçado como percebemos que de fato não há muro, não estamos do lado de lá nem no de cá, e, ele inexistindo, é impossível ficar em cima também. Tiramos sarro dos cachorros quando correm atrás do próprio rabo, mas não vemos que fazemos a mesma coisa numa escala muito maior, corremos atrás de destinos desconhecidos, indo na onda do vamos ver no que vai dar. Mas ainda acho que no final chegamos em algum lugar, mesmo as viagens sem destino terminam em algum lugar, não é mesmo? É sé você se lembr da l i v z

quarta-feira, 9 de abril de 2008

A New Hope

Tá vendo aquela estrela ali? Perto daquela grande cintilando? Eu costumava voar por ali. Antes mesmo de poder ser um pensamento. Eu via você todas as noites de lá. Pensava o que tanto você olhava, o que buscava encontrar no céu. A propósito, você encontrou o que tanto buscava? Depois de alguns anos você cessou a busca, passou a olhar mais para o chão, como se estivesse contando as pedras pelas quais pisa ao andar. Por vezes notei também que suas lágrimas vertiam de seus olhos, deslizando por sua face, seus ombros delicados tremiam a cada respiração ofegante. Provavelmente você não me ouça mais como costumava, talvez nem mesmo reconheça a minha voz, certamente não acredite mais em mim. Estou aqui a vigiar o seu sono, vejo que passa por uma rara noite de quietude. Queria poder deixar um cartão de visita ao lado do seu travesseiro, agora com os dizeres "Olá, meu nome é esperança, lembre-se de mim".

terça-feira, 8 de abril de 2008

- Queria ter uma máquina do tempo, sabia? Gostaria da possibilidade de desfazer tudo o que fiz de errado ao longo dos anos, as pessoas que eu magoei, rever as minhas prioridades. Estive muito tempo focada no que não era realmente importante, buscando mais valor nas coisas do que nas pessoas. Usei de confidências de pessoas que me eram queridas para buscar status entre as pessoas que poderiam me tornar mais importante. Gastei mais tempo querendo ser alguém do que desfrutar da companhia das pessoas que realmente se preocupavam comigo, que me perguntavam de coração se eu estava bem quando a expressão estampada nos meus olhos não era das melhores... Mas agora é tarde demais. As linhas já foram traçadas...
- Claro que não é tarde, ainda dá tempo de mudar, de consertar tudo o que você reconhece que está errando.
- Não, não dá mais tempo, só posso olhar para trás com pesar...
- Mas é claro que dá tempo. Meu Deus... você só tem dez anos, menina!

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Seja lá...

Momento congelado que estava a transformar
imagem etérea e perdida que ecoa a ilusão
faz de mim o oleiro deste vaso a se quebrar
trazendo do espelho momentos de satisfação
fogo fátuo em lampejos do mundo do sonhar
me traem as vozes que me impedem de contar
o que em letras persistem em escapar
de teu confinamento as palavras que devo circundar
imagens somem como vapor ao vento
se ao longo da estrada não alimento o pensamento.

domingo, 30 de março de 2008

Até a última gota

Vejo o choque das gotas da chuva que se arremessam contra o vidro da janela do meu quarto, como abruptamente elas perdem suas formas e se espalham em gotículas e, então se mesclando a pedaços de gotas diferentes, se refazendo, atingindo o peso suficiente para que a força da gravidade as atraia e faça com que deslizem pelo vidro e voltem para o solo, reiniciando o ciclo.

Talvez aconteça o mesmo com as pessoas, elas são arremessadas umas contra as outras em cursos, em trabalhos, salas de bate-papo, em elevadores, ligações por engano, em festas de aniversário, funerais ou seja lá mais onde as pessoas se conheçam. Na hora do choque nem sempre conseguimos passar tudo o que somos, é a velha história da primeira impressão, boa ou ruim, do amor à primeira vista e da desilusão à segunda, - acredito até mesmo que ninguém passa exatamente tudo o que é nem em anos de convivência e que sempre temos surpresas ao dobrar a esquina -. Acontece que nesses choques as pessoas podem se juntar à outras por afinidade, por exemplo, ao ouvir uma conversa entre outras pessoas você pode descobrir que estas gostam dos mesmos livros que você, e, depois de uma conversa breve você pode até mesmo se tornar amigo delas, posteriormente descobrindo que na verdade eram traficantes de órgãos. É um risco a se correr, nunca acertamos sempre em nada, nem mesmo na escolha de amigos. Mas os que sobrevivem à prova do tempo, ah, esses sim fazem valer à pena todas as barcas furadas em que naufragamos ao longo do rio da vida. E, se tudo dá errado é só fazermos como a água da chuva, nos arremessamos de novo e reiniciamos o ciclo.

sábado, 22 de março de 2008

Jornada nas Mercedes

Eu pego ônibus todos os dias para ir para o trabalho e para voltar, salvo situações em que meu pai empresta o carro dele ou quando eu volto de carona com algum amigo.
No ponto em que eu pego a condução para ir para o trabalho, passam os ônibus que vão para o Itaim, para o Sesc e, o que eu pego, para Mogi. Seguindo a lei de Murphy de que sempre a fila ao lado anda mais rápido, parece que sempre tem mais ônibus para os outros destinos do que o meu. Às vezes chega ao cúmulo de passarem dois ônibus para o Itaim antes de passar um para Mogi.
De tanto esperar o meu ônibus para ir para o trabalho eu fico feliz em vê-lo até mesmo quando eu não preciso dele, hoje eu estava de carro, e passei ao lado do ponto e lá vinha a condução que eu tanto espero durante a semana, senti alegria ao vê-lo e só depois me veio à mente que além de estar de carro eu não estava indo para o trabalho, então não havia significado algum essa exaltação em vê-lo.
Adoro ler nas viagens ao trabalho, mas confesso que por vezes passo mal. Depende muito da habilidade do motorista e de quanto está aprumado meu labirinto. Quando não tenho nada para ler ouço algum podcast no mp3 player ou mesmo alguma música que eu nunca tenha reparado muito na letra, ou que queira aprender a cantar ou tocar. Gosto de me sentar na janela e ver o cenário passando em alta velocidade, ver as pessoas, o comércio, às vezes dá até para flagrar alguma coisa engraçada para alegrar o dia ao contar aos amigos. Nem sempre tem lugar na janela, na ida é praticamente garantido o meu lugar, mas na volta é mais difícil, foi numa dessas vezes que eu me sentei no lado do corredor que eu reparei que os protetores dos parafusos no teto dos ônibus são idênticos às balas Mentos, tanto na forma e tamanho quanto na cor, branca, não estou falando de Mentos sabor morango ou algo assim.
Falando na volta, existe ainda um outro processo, não basta a alegria de ver o ônibus chegando ao ponto, também tenho que verificar se existe algum lugar para eu me espremer dentro, não tenho aversão ao contato humano, mas às vezes, por problemas de física, a porta se fecha comigo do lado de fora. Pelo menos agora que eu estou usando lentes de contato no grau certo eu consigo enxergar que ônibus está vindo.